sábado, 20 de setembro de 2008

Mundo ANIMAL

Os pingüins são sujeitos engraçados e simpáticos. Têm um jeito bonachão de andar e uma silhueta de gente tranqüila, aprazível. É impossível não rir para eles. Acho que são os legítimos comediantes do reino animal. Mais do que macacos e focas, que até fazem suas palhaçadas, mas, não são humoristas natos.

Eles te olham, calmamente, com cara de quem diz: Ei, humano, terráquio, raça, cor, credo, cruz credo! O que você está olhando? Só porque eu sou uma ave e passo a maior parte da minha vida na água? Isso te confunde? Está curioso porque há 40 milhões de anos meus ancestrais perderam a capacidade de voar? Vai rindo, vai rindo que tenho muito a ensinar.

E tem mesmo.

Repare no vídeo desse post. Gravei ontem na sede da Polícia Ambiental, em Florianópolis. Os bichos ficam se tocando com os bicos. Não pense que estão catando pulgas como cães. Pingüins não têm pulgas. Sabe o que fazem? Eles ajeitam as penas para ficar impermeáveis.

Imagine que as penas funcionam como telhas. Não pode ter falha. É uma proteção para que a água não passe. Então eles vão encaixando essas telhas e, quando a anatomia não permite que alcancem algumas partes do corpo, como cabeça e pescoço, um pingüim amigo se encarrega de ajudar. Na gravação, tem um ou outro que dá uma forcinha. Uma situação simples, mas, de grande importância.

Isso completa o pensamento pingüiniano (pingüim+Fabiano) de que essas aves, e outros bichos, têm natural sutileza para ensinar-nos. É básico. Uma mão lava a outra. Fico nesse clichê mesmo. Evito os chavões religiosos, que seriam os próximos.

O poder público, por exemplo, poderia se inspirar em casos assim para trabalhar. Geralmente usam outros instintos animais. O mais comum é o espírito de porco.

Vou dar um exemplo.

Nesta semana acompanhei de perto o caso de Harry Paulo da Silva, de 10 anos. Um garoto do interior de Alfredo Wagner, município com 8 mil habitantes. Dá pra imaginar o que é viver nos rincões de uma cidade pequena dessas? Eu pensaria em paz, calmaria, mata, riachos, árvores frutíferas, ar puro e outras virtudes que o mundo urbano não tem.

Mas, para Harry, a pequena cidade foi violenta e cruel como as metrópoles.

O garoto precisava ir à escola. Para isso, utilizava o transporte escolar da prefeitura, que é um primor de qualidade. A condução oferecida a vinte crianças da região é uma caminhonete Toyota, coberta com lona ou fechada por um baú de ferro, com bancos de madeira nas laterais da carroceria, sem cinto de segurança ou qualquer outra engenhoca que as faça ficar seguras. É o famoso pau-de-arara.

E não é que Harry caiu da condução, ou caiu dentro da condução, ou foi conduzido a cair da condução. Ninguém sabe. O garoto foi entregue, inconsciente, aos pais pelo motorista. Foi levado no colo até o pai, o agricultor Artemio da Silva.

Imagine a cena.

Disse-me o pai: " Ele (motorista) chegou com o filho no colo, deitado assim (fez um gesto com os braços esticados), e falou pra mim: teu filho caiu. Tá com um galo na cabeça".

Ah! Se fosse simples assim.

O pai correu. Levou Harry ao hospital da cidade e depois à capital. O garoto estava em coma profundo. Em quatro dias, tentou-se, na UTI, dar uma resposta ao acidente e salvar o menino.

Acidente? Negligência combina melhor com a situação. Se fossem pingüins, os administradores responsáveis (palavra inadequada) pelo transporte escolar, teriam protegido Harry ao levá-lo para a escola.

Eu e mais dois amigos pingüins da TV (cinegrafista e motorista), por três dias, percorremos Alfredo Wagner para saber o que tinha ocorrido. Queríamos contar a história para "ajeitar" as penas. Outros pingüins (editores e produtores) por telefone também trabalharam. Espero que a gente tenha conseguido colocar parte da plumagem no lugar.

Harry Paulo não resistiu. Morreu ontem no Hospital Infantil. Os outros Harrys seguem a vida. Espero não sejam mais colocados no pau-de-arara para ir à escola.

6 comentários:

Marco Antonio Zanfra disse...

Chocante.
E o que vai acontecer com o responsável pelo transporte da "carga"? Se acontecer alguma coisa, deve demorar um bom tempo. Como demorou para esse advogado Moura Ferro sentir um cheirinho de punição por achar que o mundo foi construído para ele... e os outros que saiam da frente.

Thamy disse...

Estou muito triste com essa história. Desde terça que sonho com o menino. É impressionante. É impressionante! Caramba... Não consigo encontrar palavras. E me sinto uma incompetente.

JAMES PIZARRO disse...

Fabiano, fraterno !

Durante 40 anos dei aulas de Ecologia e de Etologia (comportamento animal) na UFSM, no RS. E usava sempre um bordão na aula, que ficou popular entre os alunos que passavam por mim no corredor e, anos depois, pelas ruas e já formados, me repetiam : "Na Natureza tudo está criado, basta imitá-la".
Teu texto exemplifica o que eu queria dizer. Por que o homem não se espelha nos animais e imita seus comportamentos de solidariedade/gregarismo (pingüins), de sociedade (abelhas,formigas,macacos), de mutualismo (crocodilo e ave-palito), simbiose, etc...
Agora, décadas depois do sucesso musical do Roberto Carlos,é que algumas pessoas mais sensíveis entendem o famoso verso da canção : "Eu queria ser civilizado como os animais".
O menino morreu por negligência ? Por ignorância ? Por azar ? Por fatalidade ? Quem é o culpado ?
Adianta achar culpados diante do cadáver frio e do futuro duma vida jovem que se esvaiu como o som duma flauta perdida na noite ?
Hoje eu, tu e outros se emocionaram com este menino que virou anjo precocemente por causa da insanidade dos homens e da negligência com a infância. Mas amanhã ou depois não choraremos mais por ele, porque até a dor tem seus próprios limites.Mas virão outros meninos. Esmagados pela fome. Torturados por tarados. Usados pelos pedófilos como laranja que perdeu o sumo e abandonados num mato qualquer. Meninas com a genitália ainda não formada, espedaçadas por estupradores sociopatas. Seus cadáveres serão encontrados com os olhos esbugalhados pela dor e pelo estupor. E nós, Fabiano,no conforto das nossas casas, perplexos, choraremos de novo.
E velhos, coluna arqueada, olhos congestionados, não teremos mais lágrimas.
Enquanto isso, em Brasília, os políticos tomam champagne com suas amantes...

James Pizarro

Anônimo disse...

Quem me conhece sabe que sou uma das últimas defensoras da raça humana, daquelas que acha que a gente tem jeito, que ama mais o "próximo" que os demais seres vivos (sorry!)...enfim... Mas todas esses descuidos e maldades que vem sendo cometidos contra crianças me fazem lembrar um verso pelo qual - ouvido há três décadas - tenho verdadeira obsessão: " É honra do homem proteger o que cresce." (**).
E ando ultimamente com essa sensação de desonra, de descumprimento da nossa obrigação de adultos, quase entregando o posto de "defensora dos humanos".
Ai, que triste...
Brígida

Anônimo disse...

(**)Para os que não conhecem. Brígida


HAY UN NIÑO EN LA CALLE
(fragmento do poema de Armando Tejada Gomez - depois musicado e cantado por Mercedes Sosa).

Es honra de los hombres proteger lo que crece,
cuidar que no haya infancia dispersa por las calles,
evitar que naufrague su corazón de barco,
su increíble aventura de pan y chocolate,
transitar sus países de bandidos y tesoros
poniéndole una estrella en el sitio del hambre,
de otro modo es inútil ensayar en la tierra
la alegría y el canto,
de otro modo es absurdo
porque de nada vale si hay un niño en la calle.

Fabiano Marques disse...

Brí,
Bri...lhante ponto de vista.
Bri...ncar com as palavras é inevitável.