quarta-feira, 26 de março de 2008

Tem boteco que parece lembrança de infância

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Na páscoa, ao viajar para reencontrar minha família no Paraná, claro, fui revisitar velhos lugares que há tempos não freqüentava. O principal deles, apesar de ser feriado santo, não foi uma igreja ou um respeitável calabouço de imagens veneradas pelos católicos, e sim, um boteco. Um boteco não, o boteco.

Trata-se do Bar do Tito, no centro de Ponta Grossa (100 km de Curitiba). Um ambiente rico pelo desapego à sobriedade. Nada de moderação na conversa, muito menos na bebida. O chope é tirado em uma bomba que há décadas sente a temperatura glacial do cobiçado líqüido. Se cerveja fosse moeda....bom, isso é outra discussão, típica de balcão.

Imagine quanta conversa desse tipo não passou pelo Bar do Tito em seus 75 anos de existência. Só no atual endereço são consideráveis 60 anos de história. As placas de publicidade de outros tempos enfeitam o lugar. A Fanta avisa que dá gosto ter sêde (assim mesmo). E aquela coca-cola da garrafa de vidro sem o rótulo vermelho tingido no vasilhame? Tinha ou não tinha mais gás?

Nos cantos do boteco encontrei coisas como a foto de uma ex-garota chamada Ellen (deve ter sido uma musa da rapaziada-belíssima por sinal), uma câmera lambe-lambe e uma garrafa de vinho imitando a Jules Rimet. Nas prateleiras percebi que o Velho Barreiro está velho mesmo. Eu diria que acabado pelo tempo. Até no Bar do Tito um senhor aposentado não tem lá muitos direitos não. Ficou largado o velhinho.

Não podia faltar um personagem. O Diógenes Silvestre, mais conservado que o velho da garrafa. Puxou papo, mostrou a identidade para confirmar a data de nascimento dele (25.12.1923) e, aos 84 anos, bebendo suas Antárticas caprichosamente geladas, disse que não queria tirar foto porque não estava de roupa. Só fui descobrir depois que falou isso pela terceira vez. Estar de roupa para ele é vestir um terno.

Ao ouvir de Diógenes que ele freqüenta o bar desde o antigo endereço; que ia até lá de carroça; e que faz isso até hoje, à pé, depois de passar na feirinha porque, segundo ele, tem umas velhas feirantes que gostam de vê-lo; bom, depois de tudo isso, fiquei me perguntando se você aí do outro lado tem um Bar do Tito na sua vida. Tem? Eu tenho vários. Tito, Zezito, Brudo, Pudim, e uma coleção deles. Cada caso é um caso e, em cada um, uns causos.

11 comentários:

André Luis Rosa e Silva disse...

prezado amigo fabiano.
li seu blog e posso agradeço por você falar da choperia Tito, que é a mais tradicional choperia dos campos gerais. o Tito é a resistência da cultura e dos bons pensamentos que fizeram de POnta grossa a "princesinha dos campos", infelizmente, hoje perdidos.
o Tito merece respeito e divulgação.
em nome dos frequentadores da velha boemia pontagrossense, deixo meu abraço.

Adriano disse...

cara, só te falo uma coisa. nos meus seis anos de PG, o bar do tito é uma das poucas lembranças boas que tenho de lá.

é "o lugar" pra se tomar um chop.

boas lembranças tbm do "bar do tanaka", "a dona maria", o "bar do neno"...

Anônimo disse...

Puxa, será que o Seu Diógenes é fiel assim também à "véia" dele? Desejo ardentemente que o bar do Tito sobreviva ao Seu Diógenes, caso contrário ele ficará órfão...
Brí

Marco Antonio Zanfra disse...

Para quem passou 20 anos como freguês assíduo - de caderneta - de vários botecos, é sempre uma delícia ler textos assim. Aliás, foi em Ponta Grossa que eu tomei pela única vez aquela Antarctica famosa, especial, sei lá mais o quê. Como há 13 anos não toco numa gota de álcool, só posso embriagar-me de saudosismo. Mas como uma ressalva: quem tem boteco como "lembrança de infância" é filho de bêbado!

Fabiano Marques disse...

Que bom que a gente ainda lembra das coisas do boteco, caso contrário, denunciaríamos aqui um, ou muitos, momentos de amnésia etílica. heheheh
A Antártica que o Zanfra tomou era A ORIGINAL. Ela tornou-se um clássico da cerveja no sul do país. Corrijam-me se eu estiver enganado.
Outra ressalva: nem todo mundo que gosta ou lembra de circo é filho de palhaço.

Anônimo disse...

Deu até sede...

polacodabarreirinha disse...

Quando é que vamos tomar umas todas, Fabiano? Vão aí dois poeminhas pra vc não dizer que eu não falei das flores.


pariso
novaiorquiso
moscoviteio
sem sair do bar

só não levanto
e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar

(paulo leminski)

nunca mais vou sair desse bar
vou beber até me afogar
não quero nenhum salva-vidas
seo garçon, traga mais bebida!

(thadeu w)

grande abraço

Fabiano Marques disse...

Se o Polaco da Barreirinha passou por aqui é porque o assunto foi mesmo pro boteco.
E eu que pensei que esse blog ia pro buraco.
O anônimo do andar de cima poderia transformar a sede em realidade. É só chamar.

Anônimo disse...

Meio dia. Chegou a hora. Seu Diógenes e mais um pessoal me esperam no velho balcão da choperia pra aquele gelado.
fui.

Papov disse...

Meu velho amigo Fabiano, vc tocou (no bom sentido) num assunto muito sério: botecos. Comecei a frequentá-los na faculdade e bem na esquina da rua onde cursei o jornalismo acadêmico tinha o "Mosca", inesquecível, e pelo nome já dá pra perceber que a higiene não era o forte do lugar. Depois de alguns anos com a barriga (hoje forte e bem criada, om chope claro, é claro, ou escuro?) enconstada em balcões cariocas, botei o pé na estrada e anotei na minha memória alcoólica vários botecos brasileiros, a saber: o Park's, em Campo Grande (MS), que não era propriamente um boteco, mas a nossa classe o transformou em um; o Gallery, na praça de Varginha (MG), quando a TV era ali perto; o "Cospe Grosso", em Resende (RJ), onde tiver o prazer de beber umas geladas com a Teresa Gracia, nossa chefe de então, e outros colegas de TV e onde choramos-bebemos a morte do Taiguara. O "Bar do Zé" - que apesar do nome é um japonês - também em C. Grande, onde as manhãs de sábado eram mais que democráticas; a Toca da Traíra em S. José dos Campos (SP) de saudosa memória; os barzinhos da Cobal-Humaitá, nos tempos de Sportv; o Bar do Pudim, onde fui poucas e boas vezes e tantos outros que não me lembro mais, e não poe excesso de pinga na veia. Espero o convite do amigo pra conhecer esse "templo" de PG e conhecer ainda seu Diógenes. Saúde a todos

Fabiano Marques disse...

O anônimo se deu bem. Foi pro Tito num sábado na hora do almoço. Isso é verdadeiramente clássico.

Yelmo Papov, meu amigo russo-carioca.
Os bares do Cobal do Leblon e outros mais Leblons são de matar de sede e de saudades. Tinha esquecido de citá-los. Boas lembranças daquela zona que é a zona sul.
Se tiveres tempo para visitar PG, "a princesinha dos campos", saio de Floripa e te pago uns tragos. Não teremos aquela vodka de beterraba, mas, o chope da Brahma, apreciado na boemia carioca, vai fazer frente aos bons tempos de parceria na redação em Curitiba. Além de lembrar dos episódios jornalísticos no Rio.
Equipamento "quase" roubado no RJ. Lembra?? hahahah
Tive que fugir de taxi de São Cristovão.
Quem quiser saber mais que me chame pro balcão.