sábado, 29 de maio de 2010

Melhor Índice de Desenvolvimento Humano?

Florianópolis tem o prazer de anunciar aos quatro ventos que é considerada a capital com a mais alta qualidade de vida do país, com IDH de 0,875.

Ótimo. Morar em uma cidade assim, faz valer cada centavo de imposto pago. Dá validade a todo voto confirmado nas urnas, mas, como na foto, o que é ruim fica debaixo das botas dos coronéis.

Tudo na vida tem um revés. Nenhuma moeda é feita apenas de coroa e a capital catarinense também mostra a sua cara. Traz à luz os seus vexames sociais, escondidos e ignorados pela maioria.

O fato que vou relatar é verdadeiro. Os nomes, fictícios. O lugar, real.

Tereza é moradora de um bairro de Florianópolis, vizinho da comunidade da Vila Aparecida. Um morro bastante conhecido localizado na parte continental da cidade. Um local marginalizado por abrigar pobres, traficantes e trabalhadores. Tudo na mesma panela social.

Há dois anos, Tereza recebia em seu condomínio, uma vez por semana, uma família que buscava papel para reciclagem. Essa família morava na Vila Aparecida. Eram cinco pessoas. O casal e três filhos.

Com o passar do tempo, eles deixaram de coletar o material. Sumiram.

Agora, em 2010, Tereza começou um trabalho voluntário na Vila Aparecida. Ajuda a cuidar de crianças numa ONG.

Logo nos primeiros dias, ela reconheceu três irmãos que participam das atividades. Uma garotinha de quatro anos, aqui chamada de Maria, outra de sete anos, Ana, e o mais velho, João, com 11. Eram eles que iam com os pais em busca de papel. Em busca de renda.

Os pais deixaram de fazer o serviço. Começaram a usar crack. A droga tomou conta da vida de todos. Enquanto os pais fumam as pedras, os filhos ficam sem comida, sem roupa, sem educação, sem atenção. A situação é tão grave que a ONG não pode mandar cesta básica para a casa deles porque os pais vendem para comprar crack.

O filho mais velho, João, é obrigado a cuidar de carros nas ruas para garantir um troco e manter o cachimbo aceso para os pais. O caso já foi levado ao conselho tutelar. Dizem os vizinhos que ninguém fez nada porque o pai faz ameaças.

Esta semana, Tereza foi dar banho na caçula, Maria, e viu que a genitália da garotinha estava com uma inflamação. Horrorizada, perguntou o que houve. E ouviu a mais chocante das respostas:

"Fui mordida por um rato, tia".

Uma pessoa da área da saúde foi chamada. A menina recebeu cuidados. Mas a família, e tantas outras famílias, continuam lá, na Vila Aparecida. Convivendo com ratos, com crack, com pobreza e com o discurso mentiroso dos ratos que por lá só aparecem de quatro em quatro anos - esses roedores de sonhos que moram em mansões pagas sabe-se lá como.

O final dessa história é uma simples constatação. Alguém tem que puxar o IDH pra cima. Nem que seja gastando muito dinheiro, público ou privado, sem visitar as Vilas Aparecidas da cidade.

9 comentários:

Vigarista disse...

Depois eu que sou vigarista.
Os canalhas nunca ajeitam a vida de ninguém, somente a deles.

Anônimo disse...

Falta vergonha na cara.
Falta justiça social.
E ainda ouço uns idiotas dizendo que os brasileiros são alegres.
Essa generalização é besta.
Os brasileiros são roubados, isso sim.
Os que estão no poder roubam a dignidade, a vida das pessoas.

Fabiano Marques disse...

Vou me apropriar de uma citação feita pelo meu camarada Gustavo Schwabe.
Ao saber dessa história, ele soltou uma frase da música Brixton, Bronx ou Baixada, do Rappa.

"É só regar os lírios do gueto que o Beethoven Negro vêm prá se mostrar."

É uma evolução do contexto. É uma discussão sobre futuro e oportunidade para as pessoas que vivem em favelas.

Marco Antonio Zanfra disse...

Uma constatação, por dolorida que seja: se cuidar da condição social já era difícil, o que fazer quando a ditadura da droga entra com suas arbitrariedades?

Fabiano Marques disse...

Aí, é uma avalanche Zanfra. Frase feita: uma bola de neve.

Ema disse...

Fabiano, há já algum tempo me dei conta que minhas lágrimas, minha sensibilidade,minha indignação, a dor que sinto quando vejo histórias assim etc...etc.. não melhoram em nada a vida das vítimas.
Então,li, engoli o pranto e gostaria de saber o que posso fazer CONCRETAMENTE para ajudar essas crianças. Como sabes estou em férias, mas volto de viagem dentro de umas duas semanas. Nos falamos.Bjs.Brígida.

Fabiano Marques disse...

Brí, eu te apresento à Tereza.

Juliana Bettini disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliana Bettini disse...

Se não bastasse toda essa falta de vergonha na cara daqueles que deveriam estar de mangas arregaçadas para dar dignidade ao povo, ainda tem essa droga pra destruir vidas e sonhos!
Senhor, tende piedade de nós!!!